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13/11/2019

A Aldeia de Maniçoba

Itu é uma das mais antigas cidades do Estado de São Paulo. O povoamento da região chamada Campos de Pirapitingui deve ter começado na segunda metade do século XVI com a Missão de Maniçoba, uma aldeia fundada pelos jesuítas para reunir e catequizar índios carijós e guaianazes. No século XVII, durante decênios Itu foi o ponto mais profundo do povoamento de todo o Brasil – a “Boca do Sertão”. O historiador Afonso de Escragnolle Taunay, diretor do Museu Paulista e organizador do Museu Republicano “Convenção de Itu”, teve a idéia de representar essa fase da história local em vários painéis de azulejos, que revestem as paredes do antigo solar dos Almeida Prado.

Não se sabe ao certo onde ficava a aldeia Maniçoba. Talvez seja a mesma aldeia de que fala Simão de Vasconcelos, situada a 90 milhas de São Paulo em direção ao sertão, “junto de um rio onde se embarcava para as terras dos carijós”. Muito pouco durou a aldeia de Maniçoba. Os jesuítas resolveram abandoná-la, concentrando suas atividades em um lugar mais perto de São Paulo. Certo é que já no início do século XVII gente da vila de Santana de Parnaíba possuía terras nos Campos de Pirapitingui. Mas, a data oficial de fundação de Itu é 1610, ano em que Domingos Fernandes e seu genro Cristóvão Diniz edificaram a capela dedicada a Nossa Senhora da Candelária. Os pais de Domingos Fernandes eram o fidalgo português Manuel Fernandes Ramos e a paulista Suzana Dias, pais também de Baltazar Fernandes, André Fernandes, Pedro Fernandes, Custódia Dias, Benta Dias e Ângela Fernandes. Os Fernandes ficaram conhecidos na genealogia das famílias paulistas com o título de “Povoadores”. André e seu pai Manuel fundaram Parnaíba. Baltazar é o fundador de Sorocaba, Domingos e seu genro Cristóvão fundaram Itu. No seu testamento, passado em 12 de dezembro de 1652, Domingos declara:

“Eu alcancei dos prelados e administradores Mateus da Costa Aborim e Lourenço de Mendonça e do senhor administrador, que hoje é Antônio de Moraes, licença para fundar uma capela para nela ter capelão curado neste Utuguassu, a qual capela levantamos entre ambos por concerto que para isso fizemos de palavra de sermos na dita capela iguais padroeiros com o defunto Cristóvão Diniz, meu genro, e lhe deixarmos nossas terças para seus aumentos da dita capela, a qual levantamos como digo no campo de Pirapitingui a honra e invocação de Nossa Senhora da Candelária, a qual capela faço e constituo por herdeira do remanescente da minha terça de tudo o que se achar por minha morte”.

Domingos Fernandes morreu no seu sítio de Utuguassu em 1653. Como lembrou o historiador Chiquito Nardy, apesar da manifesta vontade de ser enterrado na povoação que fundara, os seus restos mortais foram levados para a Igreja Matriz de Santana de Parnaíba:

“Declaro que se Deus Nosso Senhor for servido levar-me desta presente neste Utuguassu, que meu corpo seja enterrado na capela que temos levantada no campo de Pirapitingui com o meu genro o defunto Cristóvão Diniz a honra e invocação de Nossa Senhora da Candelária”.

Afonso de Taunay, que idealizou os citados painéis de azulejos sobre a historia de Itu, explicou que o uso dos azulejos historiados era uma forma de aproveitamento do vasto e nobre saguão do edifício do museu para a rememoração dos velhos fastos locais por meio de composições históricas, reprodução de documentos iconográficos valiosos e efígies de ituanos de projeção no cenário nacional, provincial e municipal. Depois de explicitar a idéia, ele a justificava:

“Dispõe Itu, em seus fastos já mais que tri-seculares, de sobejos elementos para que tal decoração se pudesse fazer com facilidade, tal a cópia de assuntos a serem evocados em seus anais, ilustrados, às vezes, por episódios relevantes e, em outras ocasiões, por lances cheios de interesse ou pelo menos pitorescos“.

De acordo com o próprio Taunay, a inspiração da escolha de painéis de azulejos para a materialização daquela idéia veio da fachada azulejada do edifício do Museu e também do gosto da época. Todavia, ele conhecia o painel de azulejos executado por José Wasth Rodrigues para o Obelisco da Memória, na Ladeira da Memória em São Paulo, e os trabalhos encomendados por Washington Luís para a Casa da Maioridade, Pouso de Paranapiacaba e o Cruzeiro Quinhentista, monumentos distribuídos no trajeto do Caminho do Mar, todos de 1922.

Iniciado em 1942, o projeto foi considerado concluído em fins de 1945, ano da aposentadoria compulsória de Taunay. A princípio ele pensou em dois conjuntos de painéis decorativos: o primeiro “puramente documental”, contendo reproduções da iconografia de Itu produzida em diferentes momentos por diferentes autores; o segundo formado de composições pictóricas representando fatos da história local nos séculos XVII, XVIII e XIX. Taunay deu conta dos dois conjuntos no artigo “Painéis do Museu de Itu”, publicado em março de 1945 na revista Administração Pública3. A partir desse artigo é possível perceber que, na medida em que se desenvolvia o projeto, Taunay acrescentava novos temas ao conjunto dos painéis de composição. Por exemplo, já próximo do final do trabalho ele resolveu coroar o revestimento das paredes com medalhões de efígies de personalidades ituanas destacadas nos cenários municipal, regional e nacional. Desta forma, a produção e colocação dos painéis imaginados por Taunay se prolongaram até 1952.

Os azulejos historiados se apresentam em três séries: painéis de composição, reproduções de documentos iconográficos e retratos de personagens ituanos. Cada um dos painéis, especialmente aqueles da série “painéis de composição”, recebeu um comentário do seu criador. Os textos dos comentários foram reunidos no Guia do Museu Republicano “Convenção de Itu”, impresso em janeiro de 1946. Na abertura do Guia, ele afirma que esperou a conclusão dos trabalhos de azulejamento para realizar a sua publicação. No mesmo Guia ele avalia o mérito do seu projeto: “Supomos que esta evocação dos principais lances da história local na cidade, por meio de avultada série de composições, é a primeira a se fazer no país. E quer nos parecer que nunca realizada em larga escala sistematizada”.

No Guia, Taunay conta que a idéia era fazer do Museu Republicano um panteão do movimento republicano paulista e, ao mesmo tempo, um museu de “artes decorativas”, com o propósito de dar aos visitantes “a idéia do que eram o mobiliário e a ornamentação de uma casa rica brasileira pelas vizinhanças de 1870 com seu feitio típico de disparidade muito de bric à brac, pela mistura de estilos e procedências”.

Mas, além de trabalhar a questão da memória republicana paulista e de montar o cenário de uma residência rica da segunda metade do século XIX, Taunay compôs um museu de história local reunindo objetos e imagens relacionadas a vários momentos da formação histórica de Itu. Na época, ele não encontrou dificuldades na sua campanha de aquisição de acervo, tendo conseguido inúmeras doações de famílias ituanas tradicionais. O Museu Republicano era o primeiro museu histórico a ser criado no interior do estado e existia então predisposição e até um certo sentimento de orgulho em fazer doações à recém criada instituição.

Para desenvolver o projeto dos painéis de azulejos Taunay convidou o artista plástico Antonio Luiz Gagni, ceramista renomado, admirador das obras de Leopoldo Battistini e Jorge Colaço, e autor de composições de cenas de São Paulo colonial para edifícios públicos, residências e igrejas da capital. Com Edmondo Gagni fez pinturas para igrejas do interior paulista. Em Barra Bonita produziu painéis de azulejos para o edifício da Prefeitura Municipal. Em Itu, além do trabalho para o projeto de Taunay, Gagni pintou azulejos para edifícios da Prefeitura Municipal e Fábrica de Tecidos São Luís. Os recursos financeiros necessários à execução do projeto do Museu Republicano seriam providos pela Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda e Prefeitura Municipal de Itu.

No processo de definição das composições Taunay fez várias sondagens e por fim sugeriu como modelo os “magníficos” azulejos do claustro da Igreja da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, e o do seu vizinho Convento de São Francisco, na cidade do Salvador. Na Igreja da Ordem Terceira os azulejos espalham-se pelo corredor de entrada, átrio, sacristia, claustro, corredores laterais da Igreja, escadaria, salas do despacho e do consistório, galeria da nave e outros compartimentos. Os azulejos do claustro e da sala do consistório estão relacionados diretamente com a história de Lisboa. Os painéis de azulejos do claustro apresentam cenas do casamento do Príncipe D.José – futuro Rei D. José I (1750 a 1777) – e da infanta D. Maria Ana de Áustria em 12 de fevereiro de 1729. O longo silhar reproduz o cortejo que se estendeu desde Belém até o Terreiro do Paço. No consistório os azulejos representam aspectos da Ribeira de Lisboa setecentista, desde a parte oriental do Terreiro do Paço até Xabregas: a Alfândega entre o Terreiro do Paço e a Ribeira (Velha), o Castelo e a Sé, o Convento de Santa Clara e a Bica do Sapato, o forte de Santa Apolônia e o Convento dos Santos, a Cruz da Pedra, o forte de Nossa Senhora da Madre de Deus, o Convento da Madre de Deus, o Convento de Enxobregas e o Palácio do Conde de Unhão. Já o Convento de São Francisco da Bahia é considerado o monumento mais importante para a história dos revestimentos cerâmicos parietais do século XVIII no Brasil. A colocação dos painéis de azulejos recortados que se encontram no piso inferior data do período 1746 – 1748. Presumivelmente produzidos na oficina de Bartolomeu Antunes, Lisboa, foram baseados no Theatro Moral de la Vida Humana y de toda a Philosophia de los Antiguos e Modernos. Este livro foi ilustrado com gravuras de Oto Venio e publicado pela primeira vez em 1608 sob o título Emblemas de Horácio, porque cada imagem trazia um comentário redigido por Horácio Quinto Flaco.

Alexandre Nobre Pais, pesquisador do Museu Nacional do Azulejo – Lisboa, lembra que com o Renascimento assistiu-se à secularização das alegorias morais utilizando divindades e heróis da mitologia clássica e da História Antiga, para personificar aspectos característicos da vida humana. As lições expostas com a utilização de imagens nascidas da cultura clássica configuram um manancial de informação que, apresentada em espaço de circulação diária, como é o caso de um claustro – “pressupõe uma dimensão tanto mais importante quanto a sua disposição parietal parece não ser fortuita”. Mas a destinatária destas alegorias morais não se reduzia somente à população confinada no convento. É possível deduzir-se que as lições tinham o propósito de influenciar os visitantes que entrassem no claustro. Taunay, que buscava “algum modelo bem típico brasileiro” para os painéis do Museu Republicano, inspirou-se nesses painéis de azulejos da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco e do Convento de São Francisco, concebidos e fabricados em Portugal. O modelo satisfazia a sua busca de um suporte para o discurso visual que deveria “didaticamente” defender a afirmação de Antonio de Toledo Piza e Francisco Nardy Filho:

“Itu era o centro do liberalismo paulista; foco donde irradiava para todos os pontos da Província os mais belos exemplos de patriotismo e civismo, estava mesmo predestinada para ser a sagrada Meca do republicanismo paulista”.

O material iconográfico teria para Taunay uma função pedagógica e permitiria a representação de “quadros passados da história da cidade” de tal forma que o discurso visual pudesse ser entendido num encadeamento evolutivo. Os quadros de “composição histórica” narram os acontecimentos mais importantes da cidade, a partir da chegada à região dos primeiros sertanistas. São ressaltados os episódios mais famosos da epopéia bandeirante, a fundação da Aldeia de Maniçoba, os atos mais conhecidos da Câmara Municipal e o espírito de independência do “povo ituano”. O encadeamento evolutivo segue em direção à Convenção de Itu, entendida como um ato significativo na gestação da República.

Taunay escolheu os assuntos dos painéis de azulejos e suas fontes iconográficas, ou então inventou imagens para as “composições históricas”, sobre cujos temas ele não conhecia nenhum registro visual. Ele inventou as imagens com base nas informações colhidas em documentos textuais. Taunay acompanhou passo a passo a composição de cada um dos painéis, trocando idéias com o ceramista ou com pintores, historiadores e funcionários do museu. Em alguns casos, aproveitou imagens criadas para outros acontecimentos. Por exemplo, o painel Elevação de Itu a vila (1657) reproduz elementos da obra Paço Municipal em 1628, óleo sobre tela de José Wasth Rodrigues. Esta pintura teve por base o esboço de edifício que aparece no mapa de Luís de Céspedes Xeria, que em 1628 percorreu o itinerário de São Paulo ao Guairá através da rota fluvial do Tietê e Paraná. O painel Partida de Araraytaguaba da Monção fundadora do Presídio de Iguatemy sob o comando de João Martins de Barros – 28 de julho de 1767 é baseado na aquarela Partida de uma monção, de Adrien Aimé Taunay (1803 – 1828). A aquarela é um dos registros visuais da Expedição Langsdorf, que principiou a sua rota fluvial no mesmo porto em 1826, e foi transposta no quadro A Partida de Porto Feliz, óleo sobre tela de Oscar Pereira da Silva (1867 – 1939).

Em razão da escassez de documentos iconográficos sobre o período colonial, por exemplo, sobre a Aldeia de Maniçoba, Afonso de Escragnolle Taunay inventou imagens a partir da descrição dos documentos textuais, que ele considerava como fontes autênticas (inventários, testamentos, atas da Câmara, correspondência, relatos coetâneos). Dessa forma, o discurso visual dos azulejos historiados serviria de reforço ao documento textual e evocativo do quadro histórico.

Jonas Soares de Souza